Ensaio sobre a Linguagem

A Linguagem é fruto da necessidade da comunicação.

A comunicação, precisa, para ser estabelecida, de referências capazes de trazer significação, seja por padronização ou tipificação, mas que, de alguma forma, regulem o conteúdo significante (símbolo, palavra escrita ou som vocálico - ou seja o meio transmissor) tornando-lhe o mais próximo possível, do seu significado (coisa, fato ou experiência - o objeto em questão). É por isso que todas as linguagens nasceram pela utilização de ícones (escrita pictográfica ou signos - desenho aproximado do que se quer representar).

O meio significante, que, ao ser organizado, gerou o que chamamos de linguagem, não é mais do que uma construção humana, estruturada, que é adestrada aos indivíduos mais novos por outros membros do mesmo grupo.

O processo de adestramento da linguagem, se processa através da apresentação ao objeto, atribuindo-se correspondência do mesmo com o meio transmissor (inicialmente por som, e, em outra fase, por escrita). Até aqui, nenhuma novidade... Feita esta apresentação, passa-se a usar o termo-som como representativo 'mental' do mesmo, sem que o objeto esteja necessariamente presente. Assim, uma bandeira passa a significar um país, uma palavra um objeto, uma letra um som, etc...

As letras, os sons vocálicos, as palavras e os símbolos, são correlativos à experiência histórica do grupo que os utiliza e não podem ser entendidos separadamente dessa realidade própria que os formou. Assim, um significante não é apenas uma construção original, mas uma definição temporal somativa (que se acumulou em vários anos), que pode, no contínuo da experiência, modificar-se, ganhar ou perder de seu significado original. Tanto assim, que palavras podem ficar com significados bastante distintos do inicial. Ou mesmo, receber significados novos, quando usada em contextos específicos, sejam eles, grupais ou temporais.

Grupos distintos, quando entram em contato, tendem a estabelecer parâmetros para o uso de significados divergentes e linguagens próprias. Grupos pequenos, de coesão forte ou convívio contínuo, tendem a criar significados novos ou atribuir palavras-chave para comentar fatos e coisas marcantes de suas experiências. Com muita frequência, isso gera, para outros que não pertencem ao grupo, um entendimento vago ou equivocado do que está sendo falado. o nome usual dado a sublinguagens, como essa, é jargão. É muito comum dentro de especialidades acadêmicas e profissões técnicas, a criação (e estruturação) desses vocabulários fechados. Por isso, para quem não pertence a um grupo, ou é recém chegado, faz-se necessário uma apresentação desse vocabulário de significados novos.

Em cada cultura, a linguagem é repassada desde a infância, para que se possa comunicar o passado e a experiência recolhida. Em algumas sociedades, isto é feito por via oral. Em outras, por escolas formais de ensino. Este é o ensino básico, sem o qual o indivíduo não consegue se comunicar com clareza, com os demais. Há várias fases de aprofundamento, que não podem ser puladas.

As especificidades das experiências comuns, aprofundam os significados. Logo, o convívio grupal contínuo, tende a formar essas sub-linguagens, tão peculiares. Alguns a chamam também de gíria, mas, independente do termo, são sub-linguagens. Elas são derivadas da vivência do grupo. Todas as conjunções mais ou menos duradouras, tendem a formar sub-linguagens. Seja na família, entre os torcedores de um mesmo esporte, entre os praticantes de uma dada atividade, entre os colegas de sala ou entre os técnicos de um mesmo setor, a existência de uma sub-linguagem própria, é uma ocorrência comum, ainda que desapercebida.

Por mais complicado que pareça, cada indivíduo transita e convive com diversas sub-linguagens ao mesmo tempo. Com isso, se vê obrigado a guardar inúmeras referências de significados distintos, que devem ser usados em cada grupo de convívio. A isso, chamamos de 'linguajar apropriado', que é, na maioria das vezes, toda uma postura, envolvendo gestos, entonação e/ou movimentos.

O Conhecimento advém sempre da experiência, pessoal ou transferida. O que é descoberto ou vivido sozinho, não necessita da linguagem, na origem, mas sim na saída - ao se querer transmitir. A recepção do conhecimento de outros, porém, é fortemente baseada na linguagem, mesmo quando o receptor é levado a refazer a experiência. Assim, o estabelecimento de uma mesma linguagem, é a melhor maneira de se garantir um mesmo entendimento. Vê-se ai, a importância do reconhecimento das sub-linguagens, sejam gírias ou jargões, daqueles com quem nos comunicamos. São elas que dão acesso aos significados mais profundos ou inusitados, pois normalmente, condensam várias informações em poucas palavras.

Apesar da 'Torre de Babel' (as várias linguagens e sub-linguagens a nossa volta), é possível, cada vez mais, o acúmulo de vastas experiências, por meios de transmissão. Tanto assim, que temos hoje, uma grande massa de cultura global, de diversas origens, disponíveis a um toque de mão. O que parece ir contra, é o stress mental, derivado da imensa profusão de informações, jogadas a todo o instante, pelos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, sobre muitas delas, a pessoa não tem como fazer ressalvas, críticas, já que não oferecem o canal de retorno (vide televisão, jornal e meios de propaganda). O máximo que se pode fazer é estabelecer uma estrutura de filtragem ou validação, pertinente a um tema, meio ou transmissor.

Conclusões deste ensaio:
1. A linguagem é um meio humano, culturalmente construído, variável de acordo com sua posição temporal e repleta de sub-linguagens que a aprofundam ou especificam.
2. É a ponte direta entre os indivíduos - e não entre indivíduos e objetos ou experiências. O conhecimento direto não carece dela, apesar do pensamento também se auto-expressar através de uma dada linguagem. Toda pessoa é capaz de sentir, pelos meios que lhe aprouver, mas a capacidade de transmitir, requer uma organização das sensações por meio de uma linguagem, de preferência, com a profundidade de significação esperada (usando recursos das sub-linguagens), que deve ser comum entre Transmissor e Receptor.
3. Apesar da ansiedade a que o conhecimento leva, ou que o indivíduo tem, na hora de se comunicar, a qualidade da linguagem é que confere valor de significado ao receptor. Se a linguagem não for a adequada, o significado se perde, e a mensagem não se transmite.

Escrito em 14/02/2002 - Texto d'Ament - A Voz que voz fala!

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mas, mantenham o endereço da fonte: " www.ament.com.br"