O Rei Mendigo

O Rei estava ali a pensar, quando lhe ocorreu uma idéia:
Deveria viajar pelo seu reino para conhecer seu povo.
Resoluto desta idéia, preparou-se para a viagem.

Partiu para uma das pequenas vilas que haviam envolta de seu reino.
Para que não fosse descoberto, vestiu-se como um simples homem
E para ter certeza de sua segurança levou consigo um chefe da guarda,
Que lhe era bem próximo e um homem de confiança,
Para ser seu companheiro nesta viagem.

Na primeira cidade, Nian, viu logo em sua entrada,
Que a pobreza era grande...
Muitos mendigos se acomodavam junto aos muros,
Com vestes rasgadas e pedindo esmolas...
Alguns nem a pediam, pois de tão enfermos,
Estavam de sobremaneira largados.

Perto de um deles, um Senhor passava, com vestes esmeradas...
O mendigo o interpelou e pediu-lhe ajuda...
O Homem empurrou-lhe e disse:
"Saia do meu caminho, ser indigno".

O Rei quis agir, mas seu amigo o impediu, dizendo:
“Aqui estais fora do palácio e poderás não ser reconhecido!“
"É melhor manter-te oculto."

Percebendo a importância do aviso de seu amigo, ele conteve-se.
Dirigiu-se ao mendigo e perguntou-lhe:
“Quem é este homem, conhece-o?"
Este lhe respondeu:
“Sim. Ensinei-lhe o ofício dos calçados."
"Ele me largou e montou sua própria oficina.
Acabou por ser minha ruína."
"Hoje ele faz de conta que não me conhece.
Deixou-me na miséria...".

O Rei lhe perguntou se ele sempre passava por ali.
Ele disse que sim, pois era o caminho entre
Sua casa e seu trabalho.

Interessado em dar uma lição naquele homem,
Ele pediu ao mendigo que lhe emprestasse suas roupas.
Deu-lhe dinheiro para comprar outras e uma carta
Para ele procurar alguém no castelo.
Disse-lhe que era amigo do Chefe da guarda do Rei,
E que este poderia ajudar-lhe lá..
O Homem se foi feliz, mas sem entender
O que alguém poderia querer com aquelas roupas maltrapilhas...

No dia seguinte, bem cedo,
O rei, Com as vestes do mendigo,
Se pós no caminho do mesmo homem do dia anterior.
Assim que o homem passou,
Ele lhe interpolou, dizendo:
"Ajude-me senhor, pois caí em desgraça...".
"Ensinei meu ofício a um homem,
Que me roubou e me renegou..."
"Ajude-me..."

O Homem assustou-se com as palavras
Daquele que ele não conhecia
E fitou-o, com ira.
Não sabia o que responder...
Voltou-se para trás e olhou em volta,
Imaginava que o outro homem,
O qual conhecia, estava por trás daquele fato,
E tinha-o feito como uma afronta...
Mas não o viu.
Voltou-se ao rei, que estava lá,
Vestido como um mendigo e disse:
"Você não sabe o que dizes..."
"Você não pode ter tido uma ruína como esta...
E eu não te conheço..."
"Por que falas isso para mim..."

O Rei fitou-lhe e disse:
"Não falei de ti, falei...?"
"Você, por acaso, foi à ruína de alguém?"

O Homem enfureceu-se e empurrou-lhe.
O Rei, que sabia dos riscos,
Havia mandado seu guarda estar lá à espreita,
Com uma pequena Guarda.
Eles se acercaram do homem e seguraram-no
Este se rebelou, gritando:
"Por que me prendes? Este ser é que é imundo".
"Ele é que está a me importunar."
"É ele que deves prender."
"Não vê que eu tenho posses e sou um homem de bem?"

O Chefe da guarde não lhe deu ouvidos,
E mandou levarem-no para a prisão do palácio.

O Rei, satisfeito com sua primeira experiência,
Voltou com os guardas para o castelo.
Após vestir-se apropriadamente,
Foi ver o prisioneiro...

Quando este o viu, corou-se.
"Mas vossa majestade é o Rei?"
Este lhe disse.
"Sou, mas não é por causa de mim que estais aqui."
"Foi tua ação contra o Mendigo, que vi um dia antes,
que condenou-te."
"Agora, estarás à mercê da vontade dele.
O que achas?"

"Perdoe-me, o Rei. Eu não sabia...".
"Tu não sabes o que tu ignoras!" , disse o Rei.
"E se não fosse eu o rei, ter-me-ia matado"
"Mas você ignorou os pedidos daquele que te ensinou...
"Feriu a honra dos aprendizes..."
"Maltratou seu Mestre..."
"Roubou-lhe o conhecimento..."
"Usurpou-lhe os bens..."
"Que crime mais quer que eu cite?"
"Perdoe-me majestade...".
"Eu apenas quis ser grande...
"Quando era pequeno e pobre,
Minha mãe me trouxe aqui,
Para ver uma festa do Rei."
"Quando lhe vi, vestido em lindas roupas, quis tê-las também..."
"Desde então, busquei enriquecer-me
E apoderar-me das coisas bonitas que,
Aqui, um dia, eu vi."
O Rei corou-se.
Sem mais falar, saiu de lá e trancou-se em seu aposento.
Acabou por adormecer, e em meio ao sonho,
Sobreveio-lhe o Anjo, novamente.
O Rei, em prantos, falou-lhe:
"Anjo, até uma parte deste dia,
Achei que pratiquei a justiça sábia de Deus,
Disfarçando-me de Mendigo."
"Pensei estar dando uma lição em um homem perverso,
que aqui mantenho preso."
"Mas ele me contou a causa de seus erros,
Está relacionada a mim..."
"Por que teria que ser assim?"

"Meu caro rei, tu és, sem dúvida,
partícipe de todas as mazelas,
Que poderias cobrar de cada um de teus súditos."
"Mas atenta-te a uma coisa:"
- Nem sempre estais certo.
- Nem sempre o outro está errado.
- Cada ser vê o seu lado e não o do outro.
- E apenas o Sábio procura ver os dois lados."

"Mas Anjo, eu agi errado com ele?"
"Entenda bem, meu rei:"
- No primeiro momento, agiste errado.
- No segundo, aplicaste a justiça como esperado.
- No Terceiro, tornas-te incapaz de condená-lo."
"Mas então, fui eu quem errou?"
"Tu e eles. Sim e Não. Talvez..."
"Mas como assim. Não te entendo...?"

"A flor nasce na Planta, tampando-a."
"Depois que ela nasce, só se vê a flor."
"Mas ela surgiu da planta, e para ela floresce."
"Ela apenas cumpre sua função, que é ser bonita e vistosa,
E com isso atrai os pássaros e os insetos..."
"Dirias que ela ultraja a planta, ou a serve?"

"Não, apenas a serve!"
"Pois bem:"
"Enquanto rei, desfrutaste da Majestosa condição,
desfilando roupas magnificas e ostentando seus bens."
"Mas tu não representas a riqueza de teu povo?"
"Tu não serias rei e considerado como tal,
Pelo teu povo e pelos teus vizinhos, se assim não se porta-se?"
"Assim, de certa maneira, não te podem cobrar por agir assim,
Como deve ser em tua posição."

"Mas e o que eu te disse,
sobre o vislumbre que o homem contou que eu o causei."
"Ele não estava correto nisto?
"Meu rei. Quantos lhe viram durante todo este tempo?"
"Quantos destes agiram assim como ele?"
"Não é tua culpa se ele lhe interpretou assim..."
"O desejo de ter, nasceu dele, e a obsessão de fazê-lo,
A qualquer custo que fosse, foi escolha dele...."
"Nada tens a ver com isso!"
"Mas então eu não errei?"
"Não que seja isso."
"Tu sentiste na pele o que ele falou,
Por que tu já usaste de teu cargo,
Para menosprezar os outros,
ou para considerá-los inferiores a ti."
"Deste erro, que é teu,
Não posso recuar em reconhecê-lo."
"Guardas bem isto, meu rei":

- UM ERRO NÃO JUSTIFICA OUTRO.

"Isto vale para ti, e para aquele homem.
Vale para qualquer um que seja."
"Há sempre soluções melhores do que revidar a um erro."
"Mesmo porque, todos têm os seus."

O Rei, cansado e surpreso, mas agora entendendo,
Despediu-se do Anjo, agradecendo-lhe...
Ao amanhecer, estando ele mais sereno,
Chamou aos dois homens em sua grande sala,
O "soberbo" e o "mendigo".
Estes lhe apareceram ansiosos e assustados.
O rei lhes disse:
"Espero que tenham aprendido com esta experiência,
tanto quanto eu."
"De hoje em diante, sereis sócios, do negócio que têm."
"A você Amim (o homem soberbo),
Só lhe cabe aceitar ou continuar preso."
"E mais:"
"Acompanharei teus negócios para que
Não fraudes ou prejudique teu sócio."
"Aceitas?"
"Sim. Obrigado majestade".
"E a você Yam (o mendigo),
Cuide dele e ensine-lhe o que aprendeu na pobreza."
"Sejais generosos como quem pede generosidade."
"Agora, vão em Paz..."

Após os homens saírem,
O Rei viu uma pequena vela azul acender sozinha.
Era o sinal de que o Anjo estava ali, com ele...

Escrito em 09/09/2003 - Texto d'Ament - A Voz que voz fala!

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