O Anjo e as Moedas

Em um pequeno vilarejo perto de Andegard, havia um vendedor chamado IaKaban, rico em seu comércio. Ele trabalhava de Sol a Sol e contava suas moedas. Muito dinheiro ele havia recolhido com seu trabalho e não era pouco o que ele fazia.
Botava também seus filhos para ajudar nas barracas de especiarias que tinha.

Não muito ao norte, tinha uma cidade de homens ricos, que por vezes, passavam por Andegard.
Quando lá iam, compravam fartamente deste homem. Não obstante, onde há Ricos, há Pobres, e muitos dos desamparados desta cidade rica, vinham a Andegard para roubar...
Em uma destas vezes, um grupo mais rebelde, entrou à cavalgada e castigou a cidade. Roubaram toda a Mercadoria de Iakaban, inclusive todas as suas posses, deixando a ele e a sua família apenas com as roupas do corpo.
Iakaban desesperou-se, com o passar do dia e o fim de suas reservas de comida...
Triste e abalado, foi até o alto de uma montanha, orar para a Divindade lhe mostrar um caminho, uma saída.
Após longas golfadas de choro, uma névoa apareceu ao seu lado, e nela, um ser luminoso...
Era um anjo que segurou-lhe a mão esquerda e pos-se a Falar:
- IaKaban, onde estão suas moedas?
- Que fazes aqui a desesperar-te ?
- Por que não sentes este Sol que te Alumia?
- Por acaso, hoje não tens tudo o que tinhas antes?
IaKaban, respondeu:
- Perdi minhas moedas, perdi minha venda...
- Perdi o sustento de minha família...
O Anjo interpelou:
- Acaso começaste tua vida com elas ?
IaKaban, retornou:
- Não.. Mas é duro perder como eu perdi...
O Anjo, com jeito, lhe disse :
- Vá até a cidade dos ricos e mendigue entre eles...
- Lá encontrará a resposta e, aconteça o que acontecer, retorne em dois dias...
Assim como veio, em névoa, o Anjo se foi...
Iakaban foi para a Cidade dos Ricos... Chegando lá, postou-se na rua principal, entre tantos, para também mendigar...
A seu lado, uma senhora chorava... Iakaban, perguntou-lhe o motivo:
- Meus filhos se foram...
- Saíram daqui a cavalo, há alguns dias, irados com o que fizeram os ricos à irmã deles...
- Disseram que iam destruir tudo e todos que encontrassem, até conseguirem força e dinheiro para retornarem e matarem os ricos.
IaKaban engasgou, num misto de raiva e surpresa, por saber que eram provavelmente seus filhos os causadores de sua desgraça e alvo de sua vingança, ao mesmo tempo em que se consternava com a história daquela mulher... Perguntou-lhe ainda:
- Mas o que fizeram os ricos à sua filha ?
- Disseram-me que se eu não tinha dinheiro, para pagar-lhes os impostos, que levariam minha filha de apenas 12 anos (a irmã mais nova deles) para ser escrava deles para os seus divertimentos.
- Meus filhos tentaram impedi-los, mas eles tinham guardas fortemente armados com eles.
- À noite, tentaram salva-la, mas como os guardas eram muitos, apenas tiveram tempo para fugir, roubando-lhe os cavalos que estavam a descansar. ..
- Depois deste dia, não mais voltaram e isto que lhe conto, soube pelos meus amigos aqui à volta, que os viram...
- O que podem eles fazer, apenas com cavalos?
IaKaban, emudeceu-se...
Era tomado por forte compaixão por aquela mulher e mesmo por aqueles que sabia serem seus algozes.... Agora lhes compreendia a fúria....
Passado o dia, e não recebera sequer uma esmola. Ao anoitecer, aquela senhora lhe ofereceu abrigo e o levou até sua casa. Lá ele viu os poucos pertences daquela mulher... Pouco mais que um bule para um chá e um pão duro para comer... Mas ela partiu o que tinha com ele...
Ao amanhecer, ele despediu-se dela e foi até os ricos muitos dos quais conhecia há tempos, como clientes... Lembrava-se de quantas armas encomendara para cada um deles, feito prodigioso responsável por muito de suas moedas. Teve dificuldades com a guarda por estar maltrapilho, mas ao avistar um conhecido, chamou-lhe pelo nome:
- Hei, Garantor, sou eu IaKaban, o mercador...
- IaKaban, o que faz aqui, assim, tão maltrapilho ?
- Deixem-no passar, eu conheço este homem (disse aos guardas...)
- Garantor, venho disfarçado pois assim não me levam as posses... Ouvi dizer que a muitos ladrões por aqui...
- Sim há... Essa gente pobre vive a fazer mais ladrões... (riu...)
Iakaban compartilhou da risada, forçadamente, para disfarçar...
- O que o trazes aqui ? (perguntou Garantor)
- Procuro uma serviçal obediente para servir as pessoas de minha casa...
- Minha esposa anda reclamando do serviço.
- Pois estás com sorte... Tenho em minhas posses uma garota que recolhi como espólio de dívidas, que ainda não usei!
Ela é até bonitinha, mas é muito brava – tentou morder-me.. Como lhe devo préstimos e sempre forneceste tudo que encomendei, leve-a com você... Mas tome cuidado... Ela morde... (riu em gargalhadas...)
Iakaban, riu-se também (fingindo) e foi com ele buscar a menina...
Ela estava amarrada ao pé de uma cama, com os olhos cheios de ira e o rosto com marcas de lágrima... Garantor entregou a ponta da corda a IaKaban e lhe disse:
- Leve-a consigo, mas cuidado... Como lhe disse, ela morde...
- Sim, tomarei cuidado.. (e ralhou com ela pelo olhar enquanto a levava)...
Despediu-se de Garantor, agradecendo e levou a menina... Os guardas o acompanharam até a saída da cidade e ao passar por sua mãe, ela os olhou em silêncio, sem entender o que acontecia... Sem muito alarde, fez um sinal para que ela os seguisse, de longe...
Saindo da cidade, a velha senhora corria para alcança-los, quando eles pararam perto de uma montanha (a mesma em que ele estivera dois dias Antes) e ela os abordou...
- Senhor, o que fazes com minha filha ?
- Como consegui tira-la deles ?
- Desculpe-me senhora, mas eu era um mercador desta pequena cidade à frente... Andegard.
- Mas por que veio até a Virong (a cidade dos ricos)
- Um Anjo me apareceu, no cume deste monte, quando estava a me lastimar pela perda de minhas moedas, mercadorias e provisões, para um bando a cavalo que roubou a todos os mercadores desta cidade...
- Meu Deus, eram meus filhos... Eles fizeram algum mau à sua família ?
- Não, agora me apercebo, que eles apenas queriam nossas coisas... Mas estavam tão raivosos e cegos, que poderiam até fazer alguma bobagem... Mas não o fizeram...
- Ainda bem, pois se algum mal tivessem feito à sua família, eu não os perdoaria.... Se soubesse deles, lhes mandaria devolver seus pertences e prestar-lhe um ano de serviço, pelo que fizeram... Mas não sei o paradeiro deles....
- Venham comigo até minha casa...
Com um misto de amistosidade, compaixão e dúvidas, prosseguiam em direção a Andegard. Chegando perto da cidade, viram a correr uns cavalos, em direção da cidade de Virong... Eram seus filhos... Ao avista-los, pararam seus cavalos e desceram aflitos a abraçar sua mãe e sua irmã.. Nem notaram o pobre maltrapilho junto delas... Estavam formosos em vestimenta e armados... Após o comovente abraço familiar, a mãe lhes repreendera:
- Filhos... Este homem salvou a vida da irmã de vocês e foram vocês que o roubaram... Vocês devem obediência a ele, a partir de agora...
- Eles se ajoelharam, servicientes a IaKaban, que, num misto de mágoa e comoção, chorava rindo....
- Vocês não sabem do que eu estou rindo e por que estou chorando...
- Chorei antes quando perdi minhas moedas e um Anjo, no cume daquela montanha, pediu-me inexplicavelmente para apenas ir a Virong....
- Lá descobri quão fúteis eram os motivos de minhas lágrimas e percebi o motivo honroso do mal que me fizeram.... Ainda acho um erro, pois nada lhes fiz, mas sinto que minha vida, isolada em meu comércio, me fez ignorar a intenção daqueles que de mim compravam e seus reais desejos e condutas... Mesmo assim, sei que me valeu, para salvar a irmã de vocês, os favores que eu tenha feito, com meu comercio, ao verdadeiro algoz da irmã de vocês, que me deu ela por presente....
- Rio, pois o Anjo me mandou até lá, sabendo o que eu ia encontrar.....
- Venham... Vocês serão minha família também, trabalharão como iguais os meus e terão os mesmos direitos...
Olhando, uma última vez para a montanha onde se encontrou com o Anjo, viu uma névoa cintilante de Azul e Branco, de onde saia uma Mão apontando para o Céu...
Viu que apontava para o Sol! IaKaban seguiu adiante, ainda rindo por dentro, pelas suas novas descobertas.... Foram-se as Moedas, mas muito mais havia ganhado....