A Luz dos Anjos

Havia um anjo,
Em uma pequena cidade no reino de Logres.
Este, disfarçado,
Confundia-se na multidão pois buscava conhecer um homem.

Quem era este homem??
Luciano Digman, pastor presbiteriano.
Ele se tornou um homem de Deus muito austero,
E o anjo havia recebido instruções para procurá-lo

Não muito longe, estava a igreja onde Luciano professava.
Todos os Domingos, pela manhã,
Ele orava junto aos seguidores.

Sempre, dispunha-se do seguinte comentário:

"Os céus não podem esperar que todos os homens se recuperem.
Façamos algo nesse sentido, para ajudar a Deus..."

"Há homens, de outras raças que não a nossa,
Que já nasceram impuros...
E outros, que na iniquidade de suas ações,
Se tornaram pobres e odiosos..."

"Façamos então a nossa parte,
Ajudando a limpar esta terra..."

O Anjo, ao ouvir tais coisas, estremeceu-se...
Não julgava possível, idéias tão pecaminosas,
Na mente de um homem que orava tanto...

Assim,
Seguiu-lhe os passos, desde então.

Quando Luciano passava pelas ruas,
Era visível o seu olhar de descaso e superioridade,
Para com aqueles que estavam na sarjeta...
Quanto aos judeus e negros,
Causavam-lhe uma repulsa imensa, cruzar com eles...
Estes, para ele, eram infinitamente deploráveis...

"Quanta injúria" (pensava o anjo),
"Vinda de um só homem...
Que Deus não veja o que este filho
lhe faz aos seus irmãos...,
Pois até em sua misericórdia há limites..."

Então, uma voz estrondosa, ecoou dos céus:
"Meu anjo, não peques também tu, contra mim..."

"Não há limites em minha misericórdia,
E a justiça só recai sobre os homens
Pela mão dos próprios homens..."

"Eu, de minha parte,
Não aprovo muito do que fazem,
Por isso os encaminho para situações difíceis,
Onde, porém, podem sempre Triunfar,
Pelo bem maior que há neles...
Que vem de mim..."

O anjo, surpreso argumentou:
"Mas meu pai, as iniqüidades deles, às vezes são tantas,
Que não me atreveria a salva-los..."

"Pois tu ainda tens muito o que aprender...

"Não sabes que o tempo é eterno,
E que só existe para que lhes dê condição de Chegar,
Isto, a todos... que como vós chegaste..."

O anjo, mesmo sem compreender totalmente, Calou-se, como devido, e cessou seu julgamento.
Continuou a acompanhar aquele homem...

Três dias se passaram, e Luciano planejava, junto a outros,
Uma execução noturna, daqueles que ele desprezava...

Sairiam pelas ruas, encapuzados, de vestes alvas,
E a todos que julgassem necessário, tirariam das ruas.
Depois, colocaria eles em um certo celeiro abandonado.

Assim o fizeram...
Chegada a noite, recolheram mais de trinta pessoas
E levaram para o tal lugar,
Dizendo-lhes que iam vestir-lhes e alimentá-los...

Quão vão era esta estória...
Planejavam assar-lhes os corpos,
Em um incêndio aparentemente acidental..

O Anjo,
Indignado com o previsto,
Foi-se ao seu senhor e rogou-lhe permissão para interferir...

Este lhe disse:
"Sei que são nobres tuas preocupações,
E justas as tuas inquirições...
Mas não conheces este homem nem um pouco...
Não o viste, ainda, fazer..."

"Mas será preciso que ele o faça?"

"Não te desesperes, como os homens de carne,
Pois não a tens e sabes da temporariedade desta vida..."

"O que deve eu fazer, senhor??"

"Adiantai-se um dia,
E verás o que foi feito..."

O anjo assim o fez...

Era quinta, pela manhã...
O celeiro estava todo queimado...
O anjo temeu pelas almas daqueles homens...

Adentrou aos restos do celeiro e lá, havia apenas um homem...
Luciano Digman, queimado, dificilmente reconhecível...

O anjo assustou-se...
Quando viu uma sombra indo em sua direção...
Era a alma de Luciano, que logo chegou a inquerir-lhe
"Tu és um anjo??"
Vieste me levar para a casa de Deus??"
O Anjo afastou-se dele, com repulsa
E fitou-lhe nos olhos....

Luciano voltou a perguntar-lhe
"Vieste para me levar aos céus??

O Anjo, sem compreender o que fazer
Falou-lhe:
"Você planejou matar aquelas pessoas,
Trouxe-as aqui... Por que esperas que Deus te receba?"

"Por que eu lhe vi ontem...
Quando ia proceder com meu ato,
Fizera-me ver o quanto impuro eu era, apenas com teu olhar...
Chorei copiosamente e mandei que todos saíssem...
Você também se foi....
Então, prossegui apenas comigo mesmo,
Para tentar purificar-me..."

"O Anjo, que sabia-se ausente do momento anterior...
Rogou ao senhor uma explicativa..."

Este, bradou em uma voz vinda dos Céus:
"Aquele que ele pensa ser tu, era apenas eu...
Não penses que enganei-te...
Enquanto tratavas de julgar-lhe,
Dei lhe apenas uma imagem do que ele estava fazendo,
E ele não resistiu ao que viu..."

"Mas foi a vontade dele,
Em seu próprio julgamento que o condenou, E não tu, e nem eu..."

"Mas porque vieste como se fosse eu,
Como um anjo, se és o Senhor..."

"Não lhe apareci como um anjo,
Pois, senão, eu o estaria condenando
Já pela superioridade desta imagem."

"Apenas tinha a tua aparência,
Mas eu era um dos mendigos,
Que ele iria queimar..."

"Por estranho que pareça,
O Sentimento de uma de suas prêsas indefesas Imaculou-lhe o coração..."

Foi assim que ele me viu..."

"Mas por que isso Senhor..."

"Por que desta vez,
A prova tornou-se sua,
antes do que dele...
Se não te deixasse arrebatar pelo julgamento,
Farias como eu fiz, terias a minha idéia,
Não interferirias e o ajudaria a arrepender-se...
Mas foste também clamoroso, como ele,
em julgar a mim e a ele..."

"Pois, para ele que não o sabes,
Terminai vosso trabalho e trazei-o até mim, Pois desta vez, ele, com seu pouco saber,
Ouviu-me e entendeu-me mais do que tu, meu Anjo..."